Wednesday, May 30, 2007


Caminho e abrigo

O mundo é imenso e você começa agora sua longa caminhada, partindo de algum ponto que é perto de algum e longe de milhares de outros. A poeira em seus pés cansados te ajudará a contar uma história única: A sua história, cheia de adornos e detalhes afeiçoados em sorrisos, lágrimas, conquistas, perdas, sangue e suor; mesmo entre a multidão, na essência você será só, por que será apenas você escrevendo na areia seus pecados, seus desejos e sua lei. O sol escaldante do dia te queimará a pele e trará a sede pela água cristalina da verdade, a maior delas assim como a que se guarda na alma. A noite gelará tua carne, te fazendo tremer e imaginar um abrigo seguro, com pão, água e uma fogueira amena. Dos erros e acertos como fruto de suas escolhas, colherás o aprendizado e sabedoria, que nunca de tua mente e coração serão roubados; Ao longo, distante, colhendo flores e ofertando a quem te encantou, a quem te trouxe paz aos sentidos e ao peito, e nem sempre recebendo o mesmo bem em troca. De grande valor te será aprender a superar a decepção, o sabor amargo da frustração, ingratidão ou mesmo pedras contra teu corpo, pois no fundo te tornam mais forte, te ensinam a abrir os braços às primícias de um novo dia.
O conforto de se partir e saber que se tem para onde retornar, braços cheios de afeto que sentem saudade e nem por um só momento esquecem de quem está ausente. Em um mundo por vezes frio, estar só, é uma condição indissociável, estranho passar de dias sem motivo, partida sem chegada não seria exagero. Estenda a mão e seguro forte a uma outra, por que algo há de ser verdade no meio de tanto néon pra confundir o olhar, tantos personagens...; Algo há de ser verdade além da poeira, do sol escaldante e da decepção; A fome de algo sólido, que traga uma infantil esperança. Esperança essa que cada um tem dentro, e nos torna famintos para vê-la nas coisas ao redor Essa verdade é aquele tesouro que se guarda á sete chaves, pra ninguém ver, ninguém tocar, apenas quem merecer, um amigo fiel, um sorriso de pai, um abraço de irmãos, o olhar de uma criança...
Mantenha-se bem, mesmo com tropeços, quedas e recomeços, pois quando em algum ponto desse vasto mundo, assim vasto como teu coração, encontrares abrigo para te proteger do frio da noite, e lâmpada para te iluminar os olhos quando tudo escurecer, você entenderá que de tudo o que aprendeu em seu caminho, nada foi em vão.

Tuesday, May 22, 2007


“Vai te fudêire gajo...”

Me lembro como hoje de umas tardes frias, nubladas: O invernão dando as caras e no começo ainda suave. Matar aula era o máximo, o gostinho agradável de se transgredir, burlar mesmo sabendo que aquilo poderia nos custar advertências notificadas ou mesmo suspensão de dois dias! (Sim, o colégio em casos que considerava mais contundentes, suspendia os pobres adolescentes por dois dias...). Nessas escapadas o habitual era ir para o shopping tomar uns chopps e fumar Free light ou cigarro de canela: Aquelas lojas todas, tanta coisa bonita nas vitrines, aquele cheiro de coisa nova no ar, e o grupo de púberes mais incontinentes daquele colegial volta e meia lá pra tomar choppinho e conversar em meio á fumaça daqueles cigarros magrelos: Ninguém bebia para comemorar uma promoção ou um fechamento de uma grande venda, ou por dor de cotovelo, também não se fumava por solidão ou ansiedade, mas sim pelo novo, pelo provar daquilo que os adultos faziam naturalmente, pois era “péssimo” ainda não ser adulto...Mas sempre, religiosamente sempre antes do shopping, passávamos na banca da esquina da rua do colégio, no “tio”. Ele poderia se chamar fulano ou cicrano, até mesmo Adalberto, mas isso ninguém sabia e nem sabe até hoje. O “tio”era português, não tinha chapeuzinho mas um bigode feio, como todo português clássico; Isso já era motivo para pegar no pé de um colega nosso, que tinha pai português (Um dos velhos mais mal-humorados que já conheci na vida!...), e bastava pro cara ficar indignado e mandar todo mundo pra um lugar bem feio...
Na banquinha do tio sempre estava rolando algum som legal ou mesmo o rádio tocando os sucessos populares. Quando uma de suas filhas estava lá pela manhã, sempre tinha um rock legal: “Marcante” foi ver ela abaixando na nossa frente, com uma calça jeans justíssima, pra pegar alguma coisa pra um cliente, ao som de “Back in black” do Ac/Dc: A rapaziada foi ao delírio com aquela “afronta” aos hormônios juvenis!
Quando era o tio atrás do balcão, ele sempre estava conversando com alguém sobre os mais variados assuntos: O jogo de domingo, os crimes e furtos do fim de semana que ilustravam os tablóides mais populares, a inflação, a grana curta e qualquer coisa que se conversa com qualquer um na rua...Sempre que passávamos lá, tinha um cara sentado num banquinho, ao lado do balcão, discutindo alguma coisa com o tio, e sempre que os dois confrontavam as opiniões ou o rapaz pegava no pé do português por uma derrota do seu time, por exemplo, ele mandava na lata ás risadas; “Vai te fudêire gajo”...Era assim que eu entendia. O tio era portuga gente boa, vivia rindo das malcriações que ele mesmo falava mas sempre atendia bem á galera: Eu costumava comprar amendoim e chiclete, sendo que o amendoim era diário; Ele tinha aqueles potes grandes cheios de amendoim salgado e uma pequena xícara como medida; Perguntava quantas medidas você ia querer, e se não me falha a memória, cada uma custava trinta centavos...
O tio foi um personagem clássico daqueles dias especiais, que nem eram tão especiais enquanto eram vividos, mas como tudo o que vai, deixaram muita saudade em mim. O tio também deixou saudade; Beirando o emblemático, amigos de juventude sempre juntos, passando ás pressas na banquinha de revistas e doces, afoitos, na correria pra não perder o ônibus do horário ou para ir conversar no shopping.
Eu, volta e meia me pego dizendo “Vai te fudêire...” em pensamento pra “N” coisas; Peneirando o que se vale à pena guardar e o que se deve ignorar e esquecer, como quem escolhe cores, como quem escolhe as conchas mais legais na praia, as flores mais bonitas no canteiro: Se sorri a quem ou o quê se gosta e se diz “Vai te fudêire” sempre que algum/algo te desagradar, ou não te trouxer algo de bom, não te fizer bem ou parecer te roubar a luz...Saudade daqueles tempos inocentes e do “Vai te fudêire” do português da banca, que tanto nos fazia dar risada, nos divertindo com aquela irreverência carregada de sotaque luso que fazia até o próprio rir de si mesmo...! Se você não é como o tio, tem sangue de barata e nunca mandou alguém ou algo se fudêire, me desculpe, mas tenho que lhe dizer: Vai te fudêire gajo!

=)

Tuesday, May 01, 2007


CONSPIRAÇÕES

- Hei Bob, acorda.
- Hum...
- Sério, acorda, está acontecendo algo errado.
- Hum, deixa eu dormir Mya...tsc
- Você tem que acordar preciso te contar uma coisa séria.
- Aiii meu papai do céu, o que você quer a essa hora da madrugada mulher?
- Acho que estamos sendo vitmas de uma conspiração!
- O que? Que história é essa mulher?
- Eu juro!
- Mas que tipo de conspiração, me explica melhor.
- Poxa Bob, será que você ainda não percebeu?
- Não, nada, só percebi que estou perdendo preciosas horas de sono com essa sua loucura de conspiração...Putz.
- Está havendo sim uma conspiração: Eu liguei pra Ligia, minha melhor amiga e o celular está desligado há dias, parece que ela não quer me atender.
- Que nada, o celular deve estar sem bateria, ou devem ter roubado dela...
- Não, a Lígia é metódica, ela não desgruda do celular. Fica ligado vinte e quatro horas por dia...
- Bom, se você diz...
- O meu chefe mandou eu passar no DP pra assinar meu aviso prévio.
- O que? Você não tinha me contado isso.
- Eu sei, mas ia. Estava apenas esperando um tempo, por que eu ia tentar conversar com ele, pra ver se mudava de idéia, mas ele foi irredutível!
- Não se preocupe. Posso te ajudar a encontrar outra coisa, agora vamos dormir, vamos?
- E outra: A dona Lurdes e seu Rick não falaram comigo ontem pela manhã: Dei bom dia, como todo dia faço, com o sorriso no rosto, eles me olharam com uma cara de velório e nada disseram.Simplesmente se viraram e entraram no carro...
- De fato estranho!
- Cortaram a luz da gente também, o funcionário da companhia de luz jurou que estávamos dois meses atrasados.
- A luz?
- Sim, a luz. Cortaram!
- Eu não percebi.
- Como não? A casa está ás escuras! Você não percebeu?
- Não, as luzes acenderam normalmente comigo.
- O Guincho levou meu carro, todos na rua estavam com roupas de tons avermelhados e apenas eu estava de Branco: Você sabe o que é olhar pra uma avenida inteira e todo mundo de vermelho, e só você de Branco? È incrível!
- Nada, mero acaso vai.
- O que achei mais estranho foi a feição das pessoas, os pedestres, transeuntes pelas calçadas: Todos de vermelho e sérios demais, tristes, alguns cabisbaixos, apagados, sem brilho nos olhos, como se sentissem um encime mal-estar, sabe como?
- Sei, sei sim amor: Eu fico assim como esses quando alguém interrompe o sono no meio da madrugada...Não é mole não viu!
- E tem mais Bob: Eu estava já caminhando a uns vinte minutos rumo ao chegar ao escritório até que no meio daquele dia nublado, aonde todos vestiam vermelho e eram tristes, apagados, vi um grupo de crianças e jovens, coincidentemente de branco, a sorrir enquanto cantavam canções de amor e humanidade em uma calçada!
- Hum? Como é?
- Isso que você ouviu: Um grupo de crianças e jovens, acho que eram uns trinta, todos cantando canções de amor, fraternidade e esperança, com violões, pandeiros, chocalhos, num primeiro momento pensei que fossem Hippies: Eles sorriam e seus olhos pareciam esmeraldas de tanto que brilhavam, eram olhares de quem ainda tem esperança na vida, esperança no próximo. Eles se olhavam e sorriam, pareciam todos da mesma família, leves e cúmplices uns dos outros naquele momento quase mágico na manhã de ontem...Eu parei, me sentei com eles e me senti um deles: Me senti aquela menina boba que você conheceu no colégio a tantos anos atrás, de saia e camisa branca, cheia de trejeitos, acreditando no futuro, e uma inabalável certeza de que mais cedo ou mais tarde seria feliz como nunca tinha sido até aquele momento: Se lembra disso Bob?
- Oh se lembro! Suas pernas eram as mais lindas de todo o colégio, naquelas saias que você usava então...! Rsrs...Eu só pensava em você...
- Essa mesma menina foi a que se sentou com os jovens na manhã de ontem. Eu fiquei pouco tempo com eles na roda, e depois me despedi e continuei o caminho em direção ao escritório, mas lamentei um pouco, no fundo, pois sabia que não ia encontrar mais pessoas de branco pelo caminho.
- Que pena amor...Mas por que sentiu isso?
- Não sei, apenas senti, e de fato acabei não encontrando mais ninguém de branco. Um pouco antes de chegar ao escritório começou a chover forte, e foi sorte, pois eu estava sem guarda-chuva...
- Que bom! Menos mal, mas podemos dormir agora meu anjo? Logo mais tenho que acordar, eu e você também.
- Tudo bem querido, vamos sim.

Os dois se dão um pequeno beijo de boa noite, se viram cada um para seu canto e em silêncio adormecem.
Seis e meia da manhã o despertador impiedoso grita: Téé´téé téé téé téé téé...Bob abre custosamente os olhos e acorda Mya:

- Ta na hora de acordar dorminhoca
- Hum... (Bocejante)
- Dormiu bem?
- Dormi sim anjo, feito uma pedra desde ás dez de ontem.
- Eu também dormi super bem, recuperei as energias pra hoje!
- Mas engraçado, acho que dormi tanto e tão bem que cheguei a sonhar.
- Um sonho? Sonhou com o que gata?
- Não me lembro, mas foi bonito e eu te contava.
- Me contava, o que?
- No sonho eu te contava uma bela história, e me emocionei muito enquanto contava!
- È mesmo? Mas não se lembra de nada?
- Não, não consigo: Apenas me lembro que te acordava e te contava uma história bonita...Espero que mais cedo ou mais tarde eu acabe lembrando dela.
- Ok gata, então vamos levantar senão a gente acaba perdendo a hora de levar os meninos pra escola...